Tuesday, March 24, 2009

Nações e Políticas

"The media tend to attribute Gaza's decline solely to Israeli military and economic actions against Hamas. But such a myopic analysis ignores the problem's root cause: 60 years of Arab policy aimed at cementing the Palestinian people's status as stateless refugees in order to use their suffering as a weapon against Israel.
As a child in Gaza in the 1950s, I experienced the early results of this policy. Egypt, which then controlled the territory, conducted guerrilla-style operations against Israel from Gaza. My father commanded these operations, carried out by Palestinian fedayeen, Arabic for 'self-sacrifice'. Back then, Gaza was already the front line of the Arab jihad against Israel. My father was assassinated by Israeli forces in 1956.
(...)
Arabs claim they love the Palestinian people, but they seem more interested in sacrificing them. If they really loved their Palestinian brethren, they'd pressure Hamas to stop firing missiles at Israel. In the longer term, the Arab world must end the Palestinians' refugee status and thereby their desire to harm Israel. It's time for the 22 Arab countries to open their borders and absorb the Palestinians of Gaza who wish to start a new life. It is time for the Arab world to truly help the Palestinians, not use them".

Nonie Darwish, "An arab-made misery", The Wall Street Journal Europe.
http://online.wsj.com/article/SB123733224510363157.html

No mínimo, esse é um ponto de vista diferente. E bastante válido, é claro. Afinal, é fato que descendentes de palestinos não podem tirar passaporte nos países árabes mesmo tendo nascido neles ou mesmo sendo casados com alguém de um desses países; ao contrário, eles são obrigados a receber o eterno "título" de palestino refugiado. É como um fardo imposto por todo o mundo árabe: os palestinos têm que se manter como palestinos sofredores para que continuem a servir de motivo para a guerra eterna contra Israel e contra os Estados Unidos.

Não acho, porém, que as coisas são tão simples assim como a autora de tal artigo acha. A política árabe não é a origem e a causadora da miséria palestina, mas sim uma consequência desta; de uma situação já existente e de um posicionamente que, a princípio, pode ter sido genuíno, muitos interesses afloraram e se mantiveram às custas dos refugiados de Gaza. E sim, deveria haver uma pressão local para que o grupo Hamas parasse com seus atentados terroristas - até porque as vítimas diretas e indiretas desses atentados não são apenas israelenses, mas também palestinos. Mas acreditar que a paz da região apenas depende das ações do Hamas é ser, no mínimo, ingênua. É ignorar os últimos 60 anos de história árabe-israelense, é ignorar todas as guerras e ações militares lideradas por Israel.

E tudo bem defender a livre saída de palestinos da faixa de Gaza; afinal, eles estão em inúmeros campos de refugiados e em cidades presas naquele velho processo de destruição-reconstrução, ainda cercados por soldados e pretensas muralhas israelenses. E se eles quiserem ir para as nações árabes, que vão - e que, de preferência, sejam recebidos como cidadãos, e não como eternos refugiados. Ou, se forem recebidos como refugiados, que tenham todos os direitos que pessoas nessa condição devem ter...
Mas há palestinos que não querem ir embora de suas terras, aqueles que há gerações estão ali, que enxergam naquela estreita faixa de terra a sua casa. E Nonie Darwish não fala em um só instante desses moradores, fala apenas daqueles que querem partir. Talvez ela própria, que partiu de Gaza ainda criança, veja apenas sob esse ponto de vista. Mas há, de fato, os que querem ficar, e para esses, não é apenas o Hamas o grande perpetrador da violência e não é a política árabe a mais poderosa e a única política a se envolver na região e a causar danos perturbadores. Não, as coisas não são tão unilaterais assim. E não acho que Israel deve ocupar um papel tão não-significativo quanto ocupa em sua análise. Israel não deixa de ser vítima nessa situação toda -assim como Gaza também é -, mas também não deixa de ser culpado.

Monday, March 16, 2009

Panorama além

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

"Panorama além", Cecília Meireles.

Thursday, March 12, 2009

Algumas considerações sobre o Jornalista

Por que é tão importante correr tantos riscos para reportar de zonas de guerra?
Pelo bem da História e também para que as pessoas, no futuro, não possam nunca dizer, como disseram no Holocausto, "nós não sabíamos. Ninguém nos disse". Nós escrevemos sobre o Oriente Médio simplesmente para que as pessoas saibam o que está acontecendo lá.

Vice Magazine, 2007. Robert Fisk

Concordo com isso; as pessoas têm que saber sobre as coisas que acontecem no mundo. Acho, porém, que isso já não é mais o suficiente. Já se passou o tempo em que a informação era altamente valorizada - justamente aquele tempo em que conseguí-la era extremamente difícil. Agora estamos na época da vulgarização da informação, da sua banalização, do "ouvir e descartar" ao invés do "ouvir e armazenar". Quem hoje armazena informação é o computador, não mais as pessoas. Elas estão acostumadas com esse "hardware externo".
Assim, não sei se é mais suficiente apenas escrever para que as pessoas saibam sobre o que está acontecendo. Até porque, de uma forma ou de outra, as pessoas ficam sabendo das notícias do mundo -já que estão inseridas nessa nossa sociedade altamente midiática. Começo a questionar, portanto, se o papel do jornalista é justamente esse, o de apenas informar. E, levando em conta o próprio Fisk, acredito que todo jornalista deve ter o mínimo que seja de ativismo em sua profissão. Não apenas informar por informar, para que as pessoas saibam e não possam dizer que não sabiam - até porque hoje as pessoas sabem, não dizem que não sabem, e continuam a não fazer nada. Mas também exigir, questionar, talvez até impressionar um pouco, para que as pessoas possam acordar desse estupor em que se encontram.
Ou será que é preciso que algo bem chocante e monstruoso aconteça para que elas acordem? Mas a morte de milhares de pessoas por causa da AIDS na África do Sul não é chocante o suficiente? Será que o genocídio de cristãos no Sudão e o apoio que parte da população dá ao seu "presidente" não é monstruoso? E os atentados diários no Iraque? E a repressão das mulheres em todo o Oriente Médio? E a corrupção constante da democracia em tantos países da América Latina? E a dominação do Tibet? E a existência de tantos famintos m um planeta que joga fora toneladas de alimentos todos os dias?
A questão é que apenas o que parece chocar são os novos problemas, e não esses velhos. Todos estão acostumados com esses eternos flagelos da humanidade. Apenas quando eles se alastram para as áreas consideradas pacíficas e ideais é que as pessoas acordam. Como erroneamente fizeram nos Estados Unidos pós-11 de Setembro. E como estão erroneamente fazendo na Europa cheia de imigrantes ilegais.
E é aí que entra a informação. Ou a falta dela, já descartada. Ou o excesso, de forma superficial. E é aí que também entra o jornalista. O jornalista/ativista. O jornalista não passivo, que apenas colhe as informações e as repassa; mas sim ativo.

O jornalismo, ser repórter, é como uma missão de vida para você?
Penso que o jornalismo deve ser uma vocação, não apenas um emprego como trabalhar em um banco ou servir café. Se o seu objetivo é apenas ganhar dinheiro, pagar as contas, comprar casas e mandar as crianças para a escola, então você não fará o seu trabalho de maneira correta. O medo de ficar desempregado estará sempre à sua volta. Para fazer um bom trabalho é preciso dizer: "Isto é mais importante do que ganhar dinheiro". Um milhão de pessoas estão lendo o que você escreve - tomara!... Você é responsável por fazer a coisa certa, por transmitir a realidade do que está acontecendo, mesmo que as pessoas não gostem de você e do seu trabalho. Essa não é uma relação mercadológica.

O que você acha sobre a afirmação de que para ser um bom jornalista é necessário ser parcial, assumir uma posição?
Eu não acho que você precisa assumir uma posição. Acho que o jornalista tem que simpatizar com as pessoas oprimidas, com os que estão sofrendo e com as vítimas das injustiças. As pessoas dizem: "Você tem que ser objetivo". Não tem! Se você estivesse noticiando o tráfico de escravos no século 18, não daria espaço igual ao capitão do navio negreiro; se estivesse presente na liberação dos prisioneiros de um campo de concentração nazista, não daria espaço igual aos representante da SS, você entrevistaria os judeus sobreviventes que quase morreram lá. (...) O Oriente Médio não é um campo de futebol, é uma tragédia humana em massa e acho que os jornalistas deveriam enfatizar e mostrar o sentimento deles pelas pessoas que são as vítimas, incluindo os israelenses.
Caros Amigos, 2007. Robert Fisk.

Monday, March 09, 2009

E por falar em sonhos...

"Se fosse possível a nossos olhos de carne contemplar a consciência alheia, julgaríamos com mais segurança a personalidade de um homem pelo que sonha fazer do que pelo que realmente faz. O pensamento supõe a vontade; o sonho não. O sonho que é completamente espontâneo, conserva, mesmo quando irrealizável, o perfil de nossa espiritualidade; nada sai mais diretamente e mais sinceramente do fundo de nossa alma que as nossas aspirações irrefletidas e sem limites para os esplendores do destino. Nessas aspirações, muito mais que nas idéias coordenadas, refletidas, sensatas pode encontrar-se o caráter de cada homem. Nossas quimeras são as que mais se assemelham a nós. Cada um sonha com o desconhecido e o impossível segundo a própria natureza".
***
"Logo mais, na restauração, uma bandeira tremulará em toda parte, ao lado de todas: a da Paz; um idioma se falará junto aos demais: o da Fraternidade; um ideal se fará presente no meio dos outros: o do progresso; uma Religião única estabelecerá a ponte de união entre o Homem e Deus: a do Amor Universal...."

Victor Hugo.
Sonhar é fácil. O difícil é pôr em prática.

Wednesday, March 04, 2009

Leve, leve...

Ah, seria tão bom se as coisas fossem sempre bem claras e simples!
Chega. Queria poder desligar os meus pensamentos agora, nesse exato momento, e apenas continuar vivendo sem ficar imaginando coisas que estão além do que posso saber ou compreender. Apenas viver, sabe? Sem se preocupar com o que está por vir.

[É difícil. Mas tão melhor!]

...sem preocupações.

Sunday, February 22, 2009

Carnaval em Salvador


"Água, dois real! Cerveja, dois real!"

E é assim que eles seguem: gritando em uma competição desleal com o trio elétrico, com um isopor de mais de dez quilos nas mãos, abrindo caminho por entre os foliões. São os homens e mulheres que não vêem no Carnaval uma época de muita diversão, de Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e, convenhamos, muito beijo na boca; ao contrário, eles enxergam nesses seis dias uma oportunidade para trabalhar.

A grande questão do Carnaval de Salvador sempre foi a dos cordeiros e a da "pipoca". O velho problema social e racial da Bahia, especialmente representado nas ruas enquanto os trios passam pela clara divisão de cores: das cordas para dentro, os brancos, da corda para fora, os negros. Porém, o que mais chamou a minha atenção não foi isso (embora essa divisão seja bastante chocante), mas sim os vendedores com suas caixinhas de isopor.

Mesmo estando dentro das cordas, são negros. Não usam o abadá, obviamente, sendo que a entrada deles é permitida para facilitar a compra de bebida nos blocos e para evitar que os foliões tenham que sair para a pipoca. Eles ficam andando de um lado para o outro, abrindo caminho com uma facilidade incrível enquanto nós, meros mortais, nos matamos para dar um passo no meio das pessoas. E não param de gritar, suas vozes fortes atravessando as ruas da cidade, deixando para trás até mesmo os gritos histéricos dos cantores naquele eterno clamor de "levantem as mãos, pulem, se matem, beijem muito".

Em meio a toda essa histeria do bloco, eles se mantém sérios. E concentrados. Não podem vacilar por um momento, não podem pular, cantar, se divertir, rir. Afinal, a concorrência é grande, e é peciso ficar atento a qualquer possível cliente ali dentro.

É quase desconcertante; tanto alegria, e aquelas pessoas trabalhando. E trabalhando duro, passando as noites em claro, recebendo empurrões e cotoveladas para ganhar pouco. E é pouco. Segundo um repórter do jornal A Tarde, em seis dias de Carnaval, o lucro médio fica entre 50 a 100 reais. Ou seja, seis dias de exaustão, noites não dormidas, grosserias dos foliões, para isso. 50 reais.

É uma realidade triste. Comodismo para uns, sustento para outros. Ainda mais quando, a isso, se soma o fato de que o carnaval já se resumiu a um grande evento comercial. Não há mais espontaneidade, é tudo muito bem forjado: quando o posto da Band está perto, distribuem enfeites com a logomarca, assim o nome da emissora aparece em suas transmissões... Quando o camarote da banda que está tocando passa, o trio para e fica por um longo tempo tocando as melhores músicas... E por falar em músicas, elas se repetem como em um disco quebrado, cada cantor tentando fazer com que a sua se torne o hit do carnaval baiano.

Não sei... Mas, participando do Carnaval, talvez eu tenha entendido um pouco mais sobre suas diâmicas. Conversando com os foliões, que são, na maioria, paulistas; observando os cambistas, negros e negras baianos e trabalhadores; vendo a "pipoca", aquelas massa escura estática com olhos muito brancos, brilhantes e desejosos de atravessar as cordas; presenciando a polícia passar empurrando e esbarrando nas pessoas. Sim, acho que senti o que é o Carnaval na Bahia. E acho que posso até dizer que entendi também o porquê de, todo ano, Salvador receber três milhões de turistas -porque é muito divertido estar dentro das cordas como eu estive.

Uma coisa, porém, não entendi... Por que é que essa festa é chamada de a maior festa popular do mundo?

Friday, February 13, 2009

Um relato


"Eu me sento com as crianças. As roupas delas têm tantos buracos. Elas estão caindo aos pedaços. As crianças não têm sapatos. Eu peço ao tradutor para por favor falar, 'Vocês têm passado por muita coisa. Vocês têm sido muito fortes'. Alguns sorriem. Outros inclinam a cabeça. Elas querem que eu saiba que elas faltam escola. 'O que elas precisam?'.'Primeiro comida e então água'. 'Elas têm algum remédio?' 'Não'. Eu noto muitos cortes. O olho de uma menina pequena está fechado e inchado como uma bola de golfe. Talvez um inseto. Nenhum médico está aqui para examinar o olho.

'Antes da luta, como era a vida de vocês?'. Escola, muitas frutas. Algumas não sabem aonde os pais estão. Elas esperam que estejam vivos 'em Chad ou no Oriente Médio'. 'Algumas de nós são orfãs vivendo com outras famílias'.

Elas me contam como foram mal-tratadas. Abda foi amarrado pelo pescoço e surrado e depois abandonado para morrer. Seu pai foi morto pelos Janjaweed. Ele tem dez anos de idade.

Elas estão preocupadas de ficar frio nos próximos dias. Eu perguntaria o que normalmente pergunto. O que você quer ser quando crescer? Ou qual o seu esporte favorito ou comida, etc. Mas perguntar a essas crianças seria cruel. Elas não têm infância e nem esperança.

Elas apertam mãos e tocam corações. Eu faço o mesmo.

Eu prometo que encontrarei um modo de ajudar, mas mesmo enquanto digo isso me sinto desamparada".

Angelina Jolie, embaixatriz da UNHCR, em um diário da sua ida ao Sudão.
Foto: Angelina conversando com mulheres refugiadas no Chad, vindas de Darfur, no Sudão.

Tuesday, February 10, 2009

Guerra civil, AIDS e crocodilos

"Na minha parte da África, a morte nunca está longe. Com a maioria dos zimbabuenses agora morrendo no início da terceira década de vida, a mortalidade tem um lugar em cada mesa. Os próprios ventos urgentes e grudentos parecem sussurrar a mensagem 'memento mori', você também morrerá. Na África, você não vê a morte do auditório da vida, como um espectador, mas sim nos bastidores, esperando apenas a sua vez de entrar. Você se sente perecível, transitório. Você se sente mortal.
Talvez essa seja a razão por que na África parece que se vive mais vigorosamente. O drama da vida lá é amplificado pela proximidade constante da morte. Isso é o que a enche de tensão. É também a essência de sua tragédia. As pessoas amam com mais intensidade lá. O amor é a maneira de a vida esquecer que é finita. O amor é o álibi da vida em face da morte".

Peter Godwin, jornalista zimbabuense, em "Quando um crocodilo engole o sol".
E a expectativa de vida no Zimbábue é de 33 anos.

Monday, February 09, 2009

Tempo de partido, de homens partidos

"Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, energéticas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir."

"Nosso tempo", Carlos Drummond de Andrade.

Será que é justa essa tarefa que nós nos demos? Será que é possível, será que é viável? E digo "justa" antes de tudo porque, para ser o que pretendemos ser, a vida que nos pertence não será mais nossa; será uma vida coletiva, uma vida externa a nós mesmos. Então, isso é justo?
Talvez seja; e justo em nome dos outros que não têm voz. Mas, novamente, quem somos nós para nos apropriarmos assim das vidas alheias? Será uma forma de compensar a nossa própria falta de vida? Aquilo que eles, donos das vidas que nos apropriamos, roubaram de nós?
É justa a tarefa, nós a escolhemos. E quem sabe não haja essa falta de vida que falei, apenas vidas demais em uma pessoa só. Aquilo de tomar a dor do mundo para si. E colocá-la nas costas, carregando-a como um fardo obrigatório. E quase nos esquecemos que, antes de tudo, foi opcional. A vida opcional daqueles que vivem para falar da vida dos outros. E sentir por todos.

Thursday, February 05, 2009

"Terra do pecado"

"Nasci na terra da Camorra, no lugar com o maior número de assassinatos da Europa, território onde a violência está ligada aos negócios, onde nada tem valor se não gera poder. Onde tudo tem sabor de uma batalha final. Parecia impossível ter um momento de paz, não viver sempre dentro de uma guerra onde cada gesto pode se tornar um desgaste, onde necessidade se transforma em fraqueza, onde tudo deve ser conquistado arrancando a carne do osso. Na terra da Camorra, combater os clãs não é luta de classes, afirmação de direitos, reapropriação de cidadania. Não é tomada de consciência da própria honra, tutela do próprio orgulho. É algo mais essencial, mais visceral. Na terra da Camorra, conhecer as estratégias de afirmação dos clãs, seus mecanismos de renda e seus investimentos significa entender como funciona o próprio tempo em cada medida e não somente no perímetro geográico da própria terra. Posicionar-se contra os clãs se torna uma guerra pela sobrevivência, como se a própria sobrevivência, a comida que você come, os lábios que você beija, a música que você escuta, as páginas que você lê não lhe dessem o sentido da vida, mas comente o da sobrevivência. E, assim, conhecer não é mais um traço de compromisso moral. Saber, entender, torna-se necessidade. A única possível para considerar-se ainda um homem digno de respirar".

Roberto Saviano, "Gomorra".

Monday, February 02, 2009

Para uma Velasco


Interessante como a gente pode promover a nossa própria felicidade e a nossa própria destruição. E é também [perversamente] interessante como o autocanibalismo é tão comum. É muito mais fácil encontrar alguém causando seus próprios males do que seus bens. E nisso, culpam os outros pelos males. E acham que os bens também dependem dos outros.
Não seria bem mais fácil se conseguíssemos ser felizes por nós mesmos?
E sim, muitas pessoas causam danos. Intencionalmente ou não. Mas quem define a intensidade das consequências é a gente. E cabe a nós também decidir com quem é que vamos nos relacionar. Ninguém é obrigado a falar com todo mundo... ser antipático às vezes é necessário para o nosso bem. E não há nada melhor do que nos cercar por pessoas que realmente gostam de nós e nos querem bem. Fica bem mais fácil ser feliz assim. E promover uma, digamos, autofelicidade :).

"Autocanibalismo no Outono", Salvador Dalí.
É, um momento livro-trash-de-auto-ajuda para descontrair ;)

Wednesday, January 07, 2009

O saldo de uma Guerra Santa

"'Estais vendo que mesmo vós não sabeis distinguir hereges de hereges? Eu, ao menos tenho uma regra. Sei que hereges sao os que põe em risco a ordem com a qual se rege o povo de Deus. (...) Nós a mantivemos por séculos. E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus'.
Guilherme abaixou os olhos e permaneceu um tempo em silêncio. Depois disse: 'A cidade de Béziers foi tomada e os nossos não respeitaram nem a dignidade, nem o sexo, nem a idade e quase vinte mil homens morreram a fio de espada. Feito o massacre, a cidade foi saqueada e queimada'.
'Mesmo uma guerra santa é uma guerra'.
'Mesmo uma guerra santa é uma guerra. Por isso talvez não devesse haver guerras santas'".

Diálogo entre dois estudiosos da teologia cristã, em "O nome da Rosa", de Umberto Eco.

E em que circunstância uma guerra é santa? E quando os dois povos e lados são de Deus, -dizem lutar por Ele, usam o nome dEle... aos olhos dEle, quem seria o lado certo, e quem seria seu?

Mas, não; mesmo sabendo que as maiores tragédias da humanidade tiveram um forte apelo e argumento religioso por trás, essa guerra atual não é assim. Não é por Alaah que o Hamas ou os palestinos estão lutando, e não é por Deus que os judeus estão lutando.
Essa, porém, não deixa de ser uma Guerra Santa. E o inimigo poderia personificar erroneamente o dito Eixo do Mal, como batizou um certo presidente americano -alegoria também errônea e ainda mais absurda a um também certo Eixo que existiu há décadas e que foi responsável pela morte de milhões de pessoas. Mas não personifica; não personifica porque a era de transformar os problemas do mundo em historinhas infantis maniqueístas já passou.

E ignorar a complexidade da situação é apenas fazer o que todos têm feito durante as últimas décadas: deixar de lado um problema latente e cada vez mais estrutural de uma região riquíssima em suas etnias, culturas e riquezas. A Guerra do Iraque e o caos posterior não estão aí por nada. A Palestina personifica, antes de tudo, o próprio Oriente Médio. E, assim como o próprio Oriente Médio, tem suas crenças e tem suas respostas infelizmente fundamentalistas. Mas, assim como todo o mundo, tem também pessoas que apenas querem viver em paz. Com uma casa. Com um emprego fixo. E sem medo de morrer no caminho ao mercado.

Mas não existe um lado inocente. Apenas muitos culpados. E centenas de vítimas.

Monday, January 05, 2009

E mais uma guerra "defensiva" de tantos dias...

"Por que Deus é horrendo em seu amor?"
Carlos Drummond de Andrade


"O que está acontecendo na palestina, não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética".
Gandhi

E quando é que a Palestina se verá livre? Livre dos sionistas, livre do Hamas...

Thursday, January 01, 2009

E quando vamos acordar de verdade?

"Today is the first day of the rest of our lives.
Tomorrow is too late to pretend everything's allright."
Nunca fui muito de acreditar nisso de "Reveillon". "Acordar" em francês, certo? Mas o acordar de que? De um novo ano? De um novo mundo, talvez? E desde quando a passagem da folhinha faz alguma diferença nas coisas do mundo? E desde quando usar um novo calendário muda alguma coisa? Eu me sinto exatamente da mesma forma que eu estava me sentindo há umas horas... As guerras também continuaram. As pessoas que estavam com fome continuaram com fome. As que estavam com medo continuaram com medo. E as que estavam morrendo talvez já estejam mortas.
Mas... não sei... Talvez eu é que tenha mudado, pois andei pensando sobre isso de "Reveillon". Isso de acordar... E, sabe, faz sentido: "today is the first day of the rest of our lives"... ou "of the rest of the year", quem sabe. Então, seguindo as minhas viagens mentais -que nem vou me dar ao trabalho de colocar aqui, porque elas são incompreensíveis até mesmo para mim -, tive vontade de fazer desejos de ano novo. De ter esperanças, de fazer planos, essas coisas que todos fazem.
Coincidentemente ou não, eu estava de branco. Branco e preto, pra ser mais exata. E "coincidentemente" porque meus desejos foram relacionados à paz. É... Mas, pra falar a verdade, eu me senti meio boba desejando essas coisas. De paz no mundo, de paz no Oriente Médio... E acabei voltando pro mesmo ponto, o de não acreditar em "Reveillon", nesse acordar...
Mas, secretamente, espero que 2009 seja diferente. Que tenha menos guerras, menos morte, menos fome, menos corrupção. Menos gente inocente morrendo por causa do fanatismo dos outros. Menos gente desesperada caindo no fanatismo. Menos gente caindo no desespero... Menos gente sofrendo. Que seja mais Palestina. Que seja mais Darfur. Que seja mais Afeganistão. Que seja mais Mulher. Que seja mais... Humano. Que tenha mais Amor.
Música: "Church on Sunday", Green Day.
obs: e, sendo um pouquinho egoísta, que 2009 seja mais Jornot 08 também ;)

Monday, December 29, 2008

A saga de um povo

"-Menino o quê, infeliz, que diabo você está vendo aí? Você está vendo alguma coisa aí? Tem um buraco aí?
-Tem, tem bem em riba de meu olho direito, bem em riba, tem um negócio piscando lá dentro! Menino!
-Tem um negócio piscando?
-Tem. Não! Parou de piscar! menino! Virsantíssima! Nossa Senhora do Perperssocoro! Tudo alumiado! Menino!
-Deixe de ser colhudeiro, Nonô, você não está vendo nada aí, está vendo coisa nenhuma! Saia daí para eu ver também.
(...)
-Eu estou vendo o futuro!
-vendo o futuro? O futuro como?
-Não sei, só sei que é o futuro, é uma coisa que tem aqui que mostra que é o futuro.
-Que coisa é essa?
-Não sei dizer, é uma coisa.
-Ora, deixe de querer fazer os outros de besta, você não está vendo futuro nenhum, não está vendo é nada.
-Estou, estou, estou!
-Então diga que bicho vai dar amanhã, que bicho vai dar?
-Não é esse tipo de futuro que eu estou vendo. É como se tivesse aqui uma voz me cochichando para explicar o que tem lá dentro, mas não tem voz nenhuma, porém tem. Menino!
-Que é que você está vendo agora?
-Ladrão como um corno! Ladrão pra dar de pau, ladrão e mentiroso por tudo quanto é lado!
-Muito ladrão aí?
-Chi! Chiiii! Nem me fale! E tudo muito bem trajado, uma finura!
-Trajado como, de terno, de duque, de colete e gravata?
-De duque de diagonal, terno de gabardine, gravata de seda, alfinetes de brilhantes, botuaduras de péurulas, sapato de sorcodilo, água de cheiro de subaco de vintes conto a gota! Isso quando é paisano.
-Tem ladrão fardado?
-Nimifales! Jesus Cristo, ói cuma tem! Menino!
-Tudo entrando nas casas e metendo a mão em tudo dos outros?
-Que nada! eles nem toca no dinheiro, tudo tem uns cartãozinho, o dinheiro não tem nome de dinheiro.
-Que nome tem o dinheiro?
-Todo tipo de nome. É verba, é dotação, é uma certa quantia, é age, é desage, é numerário, é honorário, é remoneração, é recursos alocado, é propriação de reculso, é comissão, é fis, é contiprestação, é desembolso, é crédio, é transferência, é vestimento, é tanto nome que se eu fosse dizer nunca acabava hoje e tem mais coisa pra ver. Dinheiro mesmo é que ninguém fala, todo mundo tem vergonha de falar que quer dinheiro.
-Vergonha de dinheiro aí?
-Grande vergonha! Todo mundo manda o dinheiro para fora e tem tanto acanhamento que, quando alguém conta que eles mandaram o dinheiro para fora, eles ficam acanhados e mandam prender esse dito certo alguém e , se esse dito certo alguém continuar falando do dinheiro que eles malocaram, eles mandam matar esse dito certo alguém!
-Muita gente morta aí?
-Chiii! Tem uma bomba que não deixa a alma do vivente nem sair, torra a alma também. Tá escrito aqui: nada nun suferfife a uma prosão telmonucreá, nem as arminhas, as alminhas!
-Botaram a bomba aí?
-Botaram não, tão querendo botar, que é pra garantir a paz. Se ninguém se comportar, morre todo mundo, morre até as alminhas no telmonucreá!
-mas então ninguém morreu ainda, pode morrer mas não morreu.
-Morreu sim! Tá morrendo! Tem um menino aqui de oito anos que está carregando a irmã de dois anos que um americano deu um tiro sem querer, depois que outros americanos jogaram uma bomba na casa do pai dele sem querer, na hora que os americanos entraram para invadir a terra dele para salvar ele, só que não sobrou ninguém, ficou tudo salvo. Tem genet morrendo também de todo jeito, morrendo de muita fome, cada menino magro que parece taquara, tudo os aribus vindo para comer. Muito aribu gordo!
-Não tem comida aí, não?
-Não, comida tem, tem até demais. tem um pessoal louro musturando leite em pó no macadame da avenida, para ficar mais macio. Tem gente tocando fogo em pinto e afogando o pinto que faz gosto, tem gente matando ganso só pra tirar o figo, tem gente pagando para o homem não plantar que é para não ter comida demais e o preço não descer, tem gente querendo capar os outros para os outros não fazer filhos que possam comer a comida que se joga fora, tem coisa que Deus duvida aqui! tem subola e alho jogado no rio, veja você, subola e alho! Depois que eles joga no rio, eles compra outra vez, só que no estrangeiro, que é para o estrangeiro respeitar ele.
-Muito estrangeiro aí?
-Poucos, mas tudo mandando, uma coisa por demais. O sujeito gosta de uma coisa, ele vem e diz que o sujeito não gosta e manda o sujeito gostar de outra, porém com arte. O estrangeiro manda, porém não é o estrangeiro, é o dinheiro. O dinheiro manda.
-Muito dinheiro sobrando aí?
-Chiiii! Mas tudo na mão deles!
-E pra que serve esse dinheiro todo?
-Pra tudo! Você não sabe o que ele faz!
-Que é que eles fazem assim, menino?
-Ah, eles mata, eles furta, eles rouba, eles mente, eles manda e desmanda, eles pinta o caráio e nada acontece com eles. Pense aí numa coisa, que eu lhe digo se tem aqui. Pense numa coisa bem ruim aí.
-Estão matando pai de família?
-Nem lhe conto! Chiiii! Ave Maria! Chiiii! E tem ninguém podendo sair na rua, menino? Tudo saindo, tudo morto à bala!
-Criança aí, estão matando?
-Mas que é uma liquidação, esse menino! Parece mosca no vinagre! Eta, que desgraça, que desgraça, ai meus olhinhos!
(...)
Os outros, mesmo que quisessem responder, não poderiam, porque, com um grito que jamais pensara dar, batata puxou a mão da parede em que a encostara, ao sentir escorrer sobre ela um caldo espesso e quente, um caldo vermelho e ardente, um caldo semelhante a sangue, sangue porejante lentamente das paredes das ruínas da casa de farinha, derramando-se em borbotões vagarosos sobre os blocos de argamassa, saindo de todos os pontos da parede, uma cachoeira viscosa e silenciosa, sangue brotando de cada rachadura, cada ponto escuro do cimento antigo (...). No céu de Amoreiras nada se via, a não ser as constelações de janeiro em seu passeia inexorável. Mais acima desse céu de Amoreiras, onde tudo existe e nada é inacreditável, o Poleiro das Almas, bibrando de tantas asas agitadas e tantos sonhos brandidos ao vento indiferente do Universo, quase despenca da agitação que o avassalou, enquanto a terra latejava lá embaixo e as alminhas faziam força para descer, descer, descer, descer, decser, porque queriam brigar. Por que queriam brigar? Não se sabe, nada se sabe, tudo se escolhe. Tudo se escolhe, como sabem as alminhas agora tiritando no frio infinito do cosmos, que as abalança como as arraias em pinadas pelos meninos de que têm saudades. Almas brasileirinhas, tão pequetitinhas que faziam pena, tão bobas que davam dó, mas decididas a voltar para lutar. Alminhas que tinham aprendido tão pouco e queriam aprender mais. (...) O sudeste bateu, juntou as nuvens, começou a chover em bagas grossas e titmadasm todos os que ainda estavam acordados levantaram-se para fechasr suas janelas e aparar a água que vinha das calhas. Ninguém olhou para cima e assim ninguém viu, no meio do temporal, o Espírito do Homem, erradio, mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz da grande baía".

A Ba(H)ía de Todos os Santos :)

"Viva o povo brasileiro", João Ubaldo Ribeiro.

Saturday, December 27, 2008

Nove chamadas não atendidas

"See ya later, innovator!"


Ou melhor: adeus.
E, dessa vez, é pra sempre.

***
'It's ever so funny, I don't think you're special
I don't think you're cool
You're just probably alreyt, but under these lights you look beautiful
But I'm struggling, I can't see through your fake tan
And you know it for a fact that everybody's eating out of your hands...'

-Fancy seeing you in here, you're all tarted up and you don't look the same. I haven't seen you since last year and surprisingly you have forgot my name. But you know it and you knew it all along... Oh you say you have forgotten, but you're fibbing, go on tell me I'm wrong. I fancy you with a passion, you're a Topshop princess, a rockstar too. You're a fad, you're a fashion and I'm having a job trying to talk to you... But it's alright, put it all on one-side, everybody's looking, you've got control of everyone's eyes... Including mine.

-Hell yeah... Well, see ya later, innovator!

Músicas: Arctic Monkeys.

Friday, December 26, 2008

Diane IV


Diane Arbus, "Girl in a watch cap".
Nova Iorque, 1965.

Thursday, December 25, 2008

E quem foi que me viu?

Quem foi que conseguiu tirar isso de mim?
Essa paixão de justiça, esse sentimento de solidariedade, a sensação de tristeza incansável?
Não sei... talvez tenha sido alguém, talvez tenha sido a vida.
Mas o caso é que eu não gostei dessa mudança.
Eu quero de volta.

Quem sou eu sem meus princípios?
Quem sou eu sem a minha angústia?



[Será que é preciso ser infeliz para se preocupar com os outros?]


***
E não. Ainda não achei um céu mais bonito do que o daqui.
O meu céu. O céu deles.
O céu que testemunhou o nascimento de todos os meus sonhos.
O nascimento das minha idéias.
E o mesmo céu que não viu quando esse sonhos começaram a se realizar.
O mesmo céu que ainda não viu a consolidação dessas idéias.
O mesmo céu - o céu de sempre.
Imutável diante de cada mudança minha...
Minha dialética constante -será?
E, assim, ele me parece diferente à cada vez que eu o vejo.
Sempre lindo. Sempre etéreo.
Mas sem Deus.

Tuesday, December 23, 2008

Então é Natal II

Nossa, que revolta... hahaha

Mas estou sem criatividade suficiente para escrever algo novo. Ainda mais porque acredito que o que escrevi no dia 25 de Dezembro de 2007 ainda é válido para esse 25 de Dezembro de 2008. Talvez com um pouco menos de revolta, mas continua válido =)

A hipocrisia das pessoas me assusta. Não que eu também não seja hipócrita; longe disso, acho que sou a mais alienada de todos, já que sei, mas continuo fazendo e não tento mudar a situação.

Estou falando do Natal, claro. Sobre o que mais é permitido falar no dia 25 de dezembro? Natal apenas. Suposto nascimento de Jesus Cristo, mas acho que até o valor simbólico disso já se perdeu. Agora é uma data comercial assim como o dia das mães e dos pais e dos namorados...
Não que eu seja religiosa e considere isso uma heresia. Admiro o Jesus-homem, um pensador fantástico e extremamente avançado para seu tempo, pregando a igualdade e a fraternidade. O primeiro socialista, por assim dizer! Mas o Jesus-deus... Bem, acho que a atribuição do divino a Jesus lhe tira parte considerável de sua grandeza. Quando falamos que ele é divino, é como se justificássemos seus atos; quando falamos que ele é homem, estamos demonstrando que ele era como nós e que, consequentemente, qualquer um de nós poderia ser como ele.
A questão, porém, não é de crer ou não em Deus ou em Jesus divino, a questão é de princípios. Princípios religiosos, se você preferir. As pessoas passam uma semana ou mais se preparando para o Natal, compram enfeites, decoram a casa, preparam uma ceia gigantesca, sem falar dos presentes. No dia 24 de dezembro, colocam para tocar um cd de músicas natalinas, todos se arrumam para a noite de gala, passam perfume, tiram fotos... Até a hora da prece. Sim, tem a prece. E sabe o que elas pedem? Um feliz natal para todos! Agradecem a Deus/Dinheiro pelo banquete que Ele lhes proporcionou, pela maravilhosa ocasião de estar a família reunida... Contam histórias sobre o nascimento de Jesus, sobre sua vida e seus atos. Falam de sua bondade para com todos!
Mas o pior de tudo é que elas pedem pelo mundo, pedem pelos outros, pedem a Deus para cuidar das outras pessoas! Falam da pobreza no mundo e continuam comprando as coisas mais caras e inúteis apenas porque é aniversário de Jesus Cristo! Mas como falar em Jesus em tais condições? Como falar dele e de suas pregações humanitárias assim? Eu nem sou religiosa e nunca li a bíblia inteira, mas até eu sei que isso vai contra os ensinamentos dele! Não foi Jesus que foi até um mercado e destruíu tudo por causa da fartura e de outros princípios "burgueses" em plena casa de seu pai? Para mim, o mesmo aconteceria se ele visse a mesma fartura e os mesmos princípios na comemoração de seu aniversário, uma data religiosa.
E, aliás, quantas pessoas estão passando fome naquele exato momento? Estão com frio debaixo de uma ponte, estão morrendo em campos de refugiados ou estão roubando para conseguir sobreviver? E no mesmo momento em que essa família está alí, reunida na fartura, na hipocrisia e nessa fé estúpida de que Deus vai resolver todos os problemas do mundo para tirar o peso da culpa de suas mentes...

Thursday, December 18, 2008

Lembranças dos esquecidos

"Os amados fazem-se lembrar pela lágrima.
Os esquecidos fazem-se lembrar pelo sangue".

Dito de Tizangara, Moçambique.


De Moçambique, do Sudão, do Congo, do Afeganistão, do Paquistão, da Colômbia, dos Balcãs, da Palestina, do Iraque, de Ruanda... e quantos mais outros?

Que coisa triste de se pensar...

***
Ontem
Carlos Drummond de Andrade
Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.
De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.
Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.
Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado
não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.