Wednesday, November 28, 2007

Encosto

Cara, imagina morar sozinha em São Paulo???
É que eu ainda não via essa possibilidade como uma... ér... possibilidade. Até esse fim de semana :)
O engraçado é que eu não me preparei para fazer fuvest. Já tinha lido os livros, mas, sei lá, sempre vi o pessoal que tenta a usp como aqueles cdfs que estudam a tarde inteira e também no fim de semana e, sabe, eu não estudei tanto assim... Na verdade, eu não estudei nada do que deveria ter estudado esse ano. Ou seja, a única explicação viável para minha pontuação na prova da fuvest é a de que um espírito inteligente baixou em mim na hora. E eu estou falando sério.
Mas vamos ver a segunda fase, certo? Daqui a pouco eu recobro minhas condições normais e faço uma prova péssima. Ou daqui a pouco o corte desse ano sobe dez questões... Ai, que orgulho desse meu espírito! Dez questões de folga na prova da fuvest *.*
Agora na ufba ninguém faz isso, né??! Não sei qual é o meu problema. A ufba é bem mais fácil do que a fuvest, então qual foi drama? Nervosismo? Saber que você -teoricamente -estudou o ano todo para fazer a prova daquele dia específico? Ou seja, se você for mal, você vai ter que passar mais um ano estudando tuuuuudo de novo e ouvindo as mesmas piadas dos professores o.O
Bah. Vestibular é uma merda. Uma merda necessária, mas tudo bem...
Mas eu só sei que, se passar em São Paulo -uma coisa difícil, pois a segunda fase deve ser cheia de coisas falando do próprio estado e talz...-, eu vou. Sinto muito, mamãe.

Wednesday, November 21, 2007

Destino?

Só porque hoje, no colégio, duas pessoas que não conheço simplesmente me cutucaram e falaram: "Oi, você vai fazer jornalismo, não é?". Quando eu perguntei como elas sabiam disso, falaram que eu tinha cara de jornalista. Cara, jeito, tudo de jornalista, até mesmo o livro que eu estava lendo ("Prisioneira em Teerã", de Marina Nemat) tinha dado essa impressão. Não sei se entendi muito bem a lógica disso, mas o que posso fazer? Fiquei muito feliz! Acho que existem coisas certas demais a ponto de transparecerem, se é que você me entende... Embora eu não seja supersticiosa para acreditar em destino. :)

E em falar em Jornalismo, eu não podia deixar de colocar a capa de uma das melhores revistas brasileiras, a Caros Amigos.

Tuesday, November 20, 2007

Lista de Livros 2007

  • Memórias da Segunda Guerra mundial - volume 2/1941-1945, Winston Churchill. *
  • Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro. **
  • Orgulho e Preconceito, Jane Austen. *
  • Guia essecial da bruxa solitária, Scott Cunninghan.*
  • O Ateneu, Raul Pompéia. *
  • Equador, Miguel Sousa Tavares. **
  • Memórias de uma Gueixa, Artur Golden. *
  • A menina que roubava livros, Markus Susak. **
  • A moreninha, Joaquim Manuel de Macedo. *
  • Memórias póstumas de Braz Cubas, Machado de Assis. *
  • A mão e a luva, Machado de Assis.
  • O Guarani, José de Alencar.
  • O primo Basílio, Eça de Queiroz.
  • Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida.
  • O messias de Duna, Frank Herbert. *
  • A princesa no limite, Meg Cabot.
  • Harry Potter and the deathly Hallows, J. K. Rowling (fora de ordem). *
  • A cidade e as serras, Eça de Queiroz.
  • A revolução dos bichos, George Orwell. *
  • Iracema, José de Alencar. *
  • Poemas completos de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa. *
  • A rosa do povo, Carlos Drummond de Andrade (segunda vez). **
  • A cidade do sol, Khaled Hosseini. **
  • Os filhos de Duna, Frank Herbert.

Livros que li até agora, nesse ano. A maioria foi por causa do vestibular, mas pelo menos já atingi minha cota de 24 por ano (dois por mês)!! Os livros que não gostei, assinalei com um asterisco preto ao lado, enquanto que os com asterisco vermelho são aqueles que recomendo (mais de um asterisco é porque é realmente muuuito bom :D). Os não assinalados me são indiferentes (mas não quer dizer que não são bons).

Sunday, November 18, 2007

Sonhos

"Se fosse possível a nossos olhos de carne contemplar a consciência alheia, julgaríamos com mais segurança a personalidade de um homem pelo que sonha fazer do que pelo que realmente faz. O pensamento supõe a vontade; o sonho não. O sonho que é completamente espontâneo, conserva, mesmo quando irrealizável, o perfil de nossa espiritualidade; nada sai mais diretamente e mais sinceramente do fundo de nossa alma que as nossas aspirações irrefletidas e sem limites para os esplendores do destino. Nessas aspirações, muito mais que nas idéias coordenadas, refletidas, sensatas pode encontrar-se o caráter de cada homem. Nossas quimeras são as que mais se assemelham a nós. Cada um sonha com o desconhecido e o impossível segundo a própria natureza."
***
"Logo mais, na restauração, uma bandeira tremulará em toda parte, ao lado de todas: a da Paz; um idioma se falará junto aos demais: o da Fraternidade; um ideal se fará presente no meio dos outros: o do progresso; uma Religião única estabelecerá a ponte de união entre o Homem e Deus: a do Amor Universal...."
Victor Hugo.

Friday, November 16, 2007

Um relato



"Eu me sento com as crianças. As roupas delas têm tantos buracos. Elas estão caindo aos pedaços. As crianças não têm sapatos. Eu peço ao tradutor para por favor falar, "Vocês têm passado por muita coisa. Vocês têm sido muito fortes.". Alguns sorriem. Outros inclinam a cabeça. Elas querem que eu saiba que elas faltam escola. "O que elas precisam?" "Primeiro comida e então água." "Elas têm algum remédio?" "Não." Eu noto muitos cortes. O olho de uma menina pequena está fechado e inchado como uma bola de golfe. Talvez um inseto. Nenhum médico está aqui para examinar o olho.

"Antes da luta, como era a vida de vocês?". Escola, muitas frutas. Algumas não sabem aonde os pais estão. Elas esperam que estejam vivos "em Chad ou no Oriente Médio". "Algumas de nós são orfãs vivendo com outras famílias.".

Elas me contam como foram mal-tratadas. Abda foi amarrado pelo pescoço e surrado e depois abandonado para morrer. Seu pai foi morto pelos Janjaweed. Ele tem dez anos de idade.

Elas estão preocupadas de ficar frio nos próximos dias. Eu perguntaria o que normalmente pergunto. O que você quer ser quando crescer? Ou qual o seu esporte favorito ou comida, etc. Mas perguntar a essas crianças seria cruel. Elas não têm infância e nem esperança.

Elas apertam mãos e tocam corações. Eu faço o mesmo.

Eu prometo que encontrarei um modo de ajudar, mas mesmo enquanto digo isso me sinto desamparada."

Diário da sua ida ao Sudão, por Angelina Jolie, embaixatriz da UNHCR.
Angelina conversando com mulheres refugiados no Chad, vindas de Darfur, no Sudão.

Tuesday, November 13, 2007

O ceticismo do cientista

"Volta e meia, leitores me questionam sobre o que lhes parece ser o exagerado ou pouco razoável ceticismo do cientista. As abordagens variam. Algumas vezes, acham inconsistente um cientista se dizer ateu quando não pode responder a certas questões básicas, como, por exemplo, a origem do Universo ou da vida. Dizem eles: "Vocês falam do Big Bang, o evento que iniciou tudo. Mas de onde veio a energia que provocou esse evento? Como falar de algo material surgindo do nada, sem a ação de um ser imaterial, isto é, divino?" Outras críticas dizem respeito à descrença em fenômenos paranormais, sobrenaturais, OVNIs e seres extraterrestres, espiritismo etc.
Segundo estatísticas recentes feitas pela fundação Gallup nos Estados Unidos, em torno de 50% dos americanos acreditam em percepção extra-sensorial. Mais de 40% acreditam em possessões demoníacas e casas mal-assombradas, e em tomo de 30% crêem em clarividência, fantasmas e astrologia. Não conheço estatísticas semelhantes para o Brasil, mas imagino que os números devam ser no mínimo comparáveis.
Sem a menor dúvida, a luta do cético é ingrata; ele estará sempre em minoria. Existem muito mais colunas sobre astrologia do que sobre astronomia ou ciência nos jornais e revistas do Brasil e do mundo. Mas, sem ceticismo, a sociedade estaria fadada a ser controlada por indivíduos oportunistas que se alimentam dessa necessidade muito humana de acreditar. Ela existe para todos não há dúvidas. Mesmo o cético deve acreditar no poder da razão para desvendar os muitos mistérios que existem. A paixão que o alimenta é a mesma do crente, mas direcionada em sentido oposto.
Devido a esse ceticismo, muitas vezes os cientistas (incluindo este que lhes escreve) são acusados de insensibilidade. De jeito nenhum. Eu tenho grande respeito pelos que acreditam. O que me é difícil aceitar é a exploração que existe em torno dessa necessidade, a exploração da fé. Na Índia, por exemplo, recentemente apareceram milhares de "homens-deuses", que se dizem meio deuses, meio gente. No México, funcionários do governo frequentam seminários sobre como usar o poder dos anjos. O Peru está cheio de psíquicos, enquanto na França são aromaterapeutas. Testes em laboratório visando verificar poderes extra-sensoriais invariavelmente falham.
(...)
Voltando à questão do Big Bang. A religião não deve existir para tapar os buracos da nossa ignorância. Isso a desmoraliza. É verdade, não podemos ainda explicar de forma satisfatória a origem do Universo. Existem inúmeras hipóteses, mas nenhuma muito convincente. Mesmo se tivéssemos uma explicação científica, sobraria uma outra questão: o que determinou o conjunto das leis físicas que regem este Universo? Por que não um outro? Existe aqui uma confusão sobre qual é a missão da ciência. Ela não se propõe a responder a todas as questões que afligem o ser humano.
A ciência, ou melhor, a descrição científica da natureza, é uma linguagem criada pelos homens (e mulheres) para interpretar o cosmo em que vivemos. Ela não é absoluta, mas está sempre em transição, gradativamente aprimorada pela validação empírica obtida através de observações. A ciência é um processo de descoberta, cuja língua é universal e, ao menos em princípio, profundamente democrática: qualquer pessoa, com qualquer crença religiosa ou afiliação política, de diferentes classes sociais e culturas pode participar desse debate. (Claro, na prática a situação é mais complexa. )
Ela não terá jamais todas as respostas, pois nem sabemos todas as perguntas. O cético prefere viver com a dúvida do que aceitar respostas que não podem ser comprovadas, que são aceitas apenas pela fé. Para ele, o não saber não gera insegurança, mas sim mais apetite pelo saber. Essa talvez seja a lição mais importante da ciência, nos ensinar a viver com a dúvida, a idolatrá-la. Pois, sem ela, o conhecimento não avança."

Marcelo Gleiser, "O ceticismo do cientista", Folha de S. Paulo, 16 de março de 2003.

Monday, November 12, 2007

Perpetuação?


"A Atrocidade é reconhecida como tal igualmente por aquele que a sofre como por aquele que a comete, e por todos que dela tomam conhecimento em qualquer lugar. Não existem desculpas para a atrocidade, nenhum argumento que a alivie. A atrocidade nunca equilibra ou corrige o passado. Meramente prepara o futuro para mais atrocidades. Ela é autoperpetuadora... uma forma bárbara de incesto. Quem quer que cometa atrocidades torna-se também responsável pelas futuras atrocidades assim geradas."

" Os Apócrifos do Muad'Dib", em "Os Filhos de Duna", Frank Herbert.
Campo de refugiados afegão no Paquistão.

Saturday, November 10, 2007

E justifica?

Pequena. É exatamente assim que eu me sinto diante de tudo isso.
É tanta morte, tanta dor, tanto sofrimento... Por que essas coisas acontencem? O que leva um homem a machucar outro? Nossa, eu juro que não sei. E essa pergunta pode parecer clichê de sentimentalistas por aí, mas é que ela não sai de minha cabeça. Afinal, todos já sentiram dor. E não gostaram.
Como não acredito em maniqueísmo, essa reposta de que é porque existem homens cruéis não me satisfaz. Eu também posso ser uma pessoa cruel às vezes. Mas também posso ser boa e posso não ser nada, então não acredito em pessoas naturalmente boas ou naturalmente más. Hitler, por exemplo, não era um demônio, como muitos gostam de falar, mas um homem. Talvez um homem com mais problemas do que a maioria de nós; ele teve uma vida difícil em um país acabado pela guerra, aonde as pessoas, que haviam sido criadas para acreditar em sua superioridade, não acreditavam em mais nada, nem nelas mesmas. Viveu horrores no exército, passou por miséria e teve seu sonho rejeitado duas vezes -não conseguiu entrar para a escola de artes, rejeitado em ambas as vezes por um professor judeu, a propósito. Hitler, porém, encontrou o seu refúgio: a ideologia nazista. Ela lhe explicava o porquê de tudo que lhe acontecera: a sua miséria, a derrota ariana, o fracasso de sua vida. E ele, obviamente, agarrou-se a ela com fervor, como um velho no final da vida que passa a acreditar em Deus e paraíso apenas para continuar a viver. O problema com Hitler foi que ele teve poder demais em suas mãos. Poder demais, raiva demais, ódio demais. E as pessoas acreditaram nele.
A vida de Hitler, suas derrotas, traumas, problemas -mentais ou não-, porém, não justificam o que ele fez. Não justificam os seis milhões de judeus mortos, nem mais uns três de ciganos, negros e homossexuais. Nem também os 25 milhões de russos mortos. Mas eu quero chegar justamente nesse ponto: ele fez o que fez porque pôde fazer e tinha apoio para tal. Apoio popular -por pessoas alienadas pela fome, pelo patriotismo, pelo sonho de glória, pela força de um líder em um país destruído. Se o partido Nacional-socialista não tivesse crescido tanto, nada disso teria acontecido. Portanto, passando já para a esfera atual, será que nós concordamos e ajudamos a realizar toda essa miséria, carnificina, morte, dor e fome? Esses líderes -donos de corporações, presidentes, políticos, guerrilheiros, reis, ditadores... - apenas massacram e destróem porque tem o nosso apoio ou a nossa negligência?
Ainda pensando em Hitler, também não acredito que cada um desses homens por aí seja alienado por uma ideologia e tenha tido uma vida difícil -que, repito, mesmo assim, não justifica, já que muitos de nós também tiveram uma vida difícil e ainda conseguiram agir com ethos civilizacional, tendo poder ou não nas mãos. Sei, porém, que uma das forças mais poderosas do mundo pode fazer o homem negar a sua humanidade e realizar qualquer tipo de barbárie, e essa força é a ganância. Ou ambição, se preferir. É ela que cega um homem a ponto de matar um irmão de fome, deixá-lo viver em condições sub-humanas, sem educação, água, comida. É ela também que joga bombas ao redor do mundo, em busca de mais e mais riqueza, indiferente se está matando pessoas ou não. A ganânca é a responsável pela decadência da humanidade.
Mas não gosto da palavra "cegar". Acredito que, hoje, ninguém é mais ingênuo para ignorar as consequências de seus atos. Também não são ingênuos os que percebem esses atos e não fazem nada. Nós sabemos. Quem hoje acredita que existam bombas de destruição em massa no Iraque? Ou que havia milhares de campos de treinamentos terroristas no Afeganistão - e mesmo que existissem, todos nós sabemos o porquê dessa existência, e o que a causou (sem, novamente, justificar nada) - e que Bin Laden estava lá? Quem acredita que os exércitos internacionais e os grupos de ajuda apenas não entram em determinados locais da África porque é inviável ou porque o governo local é corrupto ou totalitarista? Quem ainda acha que na favela só tem bandido, e que nossa polícia pode, por isso, já chegar atirando lá? Quem cai na ladainha de que em Cuba só tem miséria e pobreza? Quem? Ou será que estou enganada?
Ah, sabe de uma? Não sei. E às vezes dá vontade de desistir, de deixar tudo de lado, de esquecer o resto do mundo e ir viver minha vida. Bem que eu queria isso, talvez eu fosse mais feliz, não é? Mas não consigo. Não consigo não pensar nos milhares de africanos que estão morrendo de fome nesse exato minuto. Nas crianças de todo o mundo, perecendo de doenças que já deixaram de exitir em países mais ricos. Nos nossos favelados, sem uma oportunidade de acabar com o ciclo vicioso -e imposto -do pobre de ser também pobre e analfabeto. Nas mulheres árabes, africanas, asiáticas, americanas, todas as mulheres que são criadas para crer que são inferiores por serem mulheres, e não podem mostrar seus rostos, não podem ter prazer e não podem ter vida própria, que são surradas pelos maridos, que recebem salários mais baixos. Pode me chamar de assistecialista, mas se eu pudesse -e soubesse como e tivesse a coragem -para ajudar todos eles, eu ajudaria.
Você também tem o direito de achar isso uma bobagem. Ou de não achar nada, sei lá. É só uma viagem de uma menina de 17 anos.

Saturday, October 13, 2007

Elogio do aprendizado


Aprenda o mais simples
Para aqueles cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas aprenda!
Não desanime! Comece!
É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando!
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer!
Veja com seus próprios olhos!
O que não sabe por conta própria, não sabe.
Verifique a conta. É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item!
Pergunte: o que é isso?
Você tem que assumir o comando.

"Elogio do aprendizado", de Bertold Brecht
Existe um foto mais linda do que essa?

Saturday, September 29, 2007

Wednesday, September 26, 2007

Análise histórica

Segundo o dicionário Houiass da Língua Portuguesa, "selvagem" é aquele "que habita as selvas, que" vive longe da civilização, ou "que manifesta crueldade, furor". Diante desses conceitos, quem são os verdadeiros selvagens da História do Brasil, os índios ou os europeus?
Em pleno processo de expansionismo territorial, foi papel da cultura européia do século XV preencher as lacunas ideológicas que faltavam para justificar as invasões em novas terras. Nesse contexto, o termo "selvagem" adquiriu o seu significado primário, que posicionava os moradores de localidades desconhecidas como não civilizados e que precisavam da intervenção européia. Estes geralmente moravam na selva, formando o estereótipo do selvagem indígena.
Na medida em que os portugueses pisaram em futura terra brasileira, como possuiam os conceitos da atual cultura ocidental, os selvagens eram, de fato, os indígenas, que habitavam cabanas de palha e eram nômades. Afinal, foram os europeus que trouxeram a modernidade e o resultado de muitos séculos de pesquisas científicas para a terra, transformando-a em país, Brasil.
Os portugueses, porém, também trouxeram doenças e degradação aos índios e à terra. Mataram milhões, devastaram, estupraram, roubaram e destruíram uma cultura milenas e tão evoluída como a deles, já que há culturas diferentes, mas de igual valor. Assim, o termo "selvagem" adquiriu sei sentido pejorativo, e o que foi criado para os índios, ditos "básbaros" e irracionais, passou a designar os portugueses.
Levando em consideração as duas definições do termo "selvagem" na História moderna e crítica, entretanto, apenas uma é válida. Isso porque, quando se refere as índios, essa palavra traz a idéia de que estes vivem longe da civilização enquanto que eles próprios formam uma civilização. Afinal, têm culturas próprias, bem como idiomas e modo de produção. Enquanto que, no passado, era válido, o índio selvagem, nesse sentido, já não o é mais.
Assim, fazendo uma análise histórica, humanista e gramatical, os verdadeiros selvagens da História brasileira são os portugueses, que deturparam o futuro dos índios dessa terra chamada Brasil, e cujos traços de violência perduram até hoje.

Sunday, September 23, 2007

Cidade nossa de cada dia

"E se ao menos essa ilusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sentimentos especiais que só nela existem! (...) Ai jaz, espalhada pela cidade, como esterco vil que fecunda a cidade. Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutaram e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cai, muda e branca na treva; as criancinhas gelam em seus trapos; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja pertubado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos Bosques de Bolonha com peliças de trés mil francos. Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas , que só obterá, nessa amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua enfaldada miséria é a condição do esplender sereno da Cidade."


"A Cidade e as Serras", Eça de Queirós.

Saturday, September 22, 2007

A hipocrisia nossa

Homem matando homem. Torturando. Assassinando. Ou esquecendo. Afinal, todos têm a mesma consequência, não é? A morte, a miséria, a fome, a dor... Mas quantas vidas ainda terão que ser ceifadas para que o homem note que o mundo precisa de ajuda? Que os outros homens precisam de ajuda?
Isso é quase irônico de minha parte. Quase não: é irônico. Pois quem mata e tortura não se importa se a vítima está sofrendo. Na verdade, acho que o objetivo é justamente esse, o de que aquela pessoa sofra mesmo, desapareça e pare de aparecer nos jornais e revista para nos lembrar de que não estamos sozinhos... Para nos lembrar de que estamos bem, mas elas não. Ninguém quer sofrer, não é verdade? Então é até melhor que elas morram mesmo para parar de nos encher de remorso de estarmos levando a vida tão confortavelmente....
Outra ironia minha. Quem mata, não sente remorso -ou pelo menos não deveria sentir. Mas, sabe, é até legal que a gente mostre que se importa com o mundo. Está na moda, não é? Faz você parecer uma pessoa menos... vazia. Faz um discurso emocionante em um jantar com uns amigos, até simula uma lágrima ou duas. Depois, todos lhe olham admirados: "Ela se importa", pensam. Ela se importa.
Mas não se importe: esqueça mesmo. Esqueça, quem se importa se tem gente morrendo por aí? Não é sua mãe! Nem nenhum parente seu. É só um homem ou uma mulher qualquer... Talvez uma criança, criança essa que já tinha sua vida demarcada mesmo antes do seu nascimento: ela nasceu sem destino, nasceu para sofrer. Talvez tenha nascido para lhe deixar um pouco triste por uma hora ou duas, depois que você viu o corpo dela estirado em alguma rua no noticiário...
Nossa, eu estou extremamente ingênua hoje. Você não vai ficar triste, não é verdade? É claro que não! Afinal, quantas pessoas já morreram hoje que você ouviu falar? As cifras já ficaram tão comuns que as pessoas nem se importam mais: mil alí no Oriente Médio, mais umas 400 na Chechênia, talvez umas dez mil na África... É normal, as pessoas teriam que morrer algum dia mesmo, certo? E não há nada que você possa fazer para evitar isso... Afinal, quem é que vai parar para pensar que, por trás de cada número, há uma infinidade de vidas? Que cada unidade dos milhares de mortos representam uma pessoa, com toda a sua complexidade? Que aquela pessoa tinha sonhos -talvez de ser jornalista, médico, professor -, tinhas hobbies e a mesma capacidade de pensar e sentir que você? Que era a mãe de alguém, a irmã, o pai, o marido... Quem se importa?
A questão é: como elas morreram? De que doença, com qual arma? De fome, talvez? Agora, porque uma pessoa morreria de fome em uma planeta tão farto? É, isso mesmo, eu disse farto, e acho que já está na hora de você parar de se enganar ao pensar que, como os recursos naturais estão se esgotando, não tem mais comida e água para essas pessoas. Tem sim, e muita, o problema é que elas não são importantes nem politica, nem economicamente para aqueles que tem o poder de lhes fornecer água e comida. Ou casa, se você for analisar melhor. Casa, remédio, escola, lazer... Tudo o que uma pessoa normal, como você e eu, tem. O problema é que elas são inválidas no grandioso trabalho de obtenção de riqueza.
Mas sim! Talvez você já tenha tido sua cota de se preocupar com o mundo hoje. Ou talvez você nem tenha se precocupado, não é? Talvez você seja o assassino, o torturador, ou até o, digamos "esquecedor", e você não pode, não se esqueça, sentir remorsos. Eles que sofram bem longe de nós. Bem longe e, de preferência, silenciosamente.

Não é preciso muito para ajudar, lembre-se disso.
Apenas um pouco de humanidade.

Sunday, September 02, 2007

Animais de Produção

Bilhões de animais de produção são criados atualmente em fazendas industriais. Presos em gaiolas apertadas e super-lotadas, os animais são forçados a crescer num ritmo extremamente rápido, para garantir aos fazendeiros lucro crescente e incessante na produção de ovos, carne e leite. A WSPA trabalha para acabar com o sofrimento desses animais.
A campanha Bem-Estar dos Animais de Produção da WSPA foi desenvolvido para garantir melhores condições de vida aos animais de fazenda em todo o mundo. Principalmente na Ásia e na América do Sul - áreas de grande crescimento da agricultura industrial.
Gaiolas de Poedeiras
Quase todas as 5,6 bilhões de galinhas poedeiras do mundo estão presas dentro de pequenas gaiolas. Sem espaço sequer para baterem as asas estas galinhas não conseguem produzir ninhos e seus ossos ficam tão fracos que podem quebrar por qualquer movimento mais brusco.
Porcas Gestantes
As porcas gestantes são presas em “gaiolas-maternidade”. Esse sistema mantém as porcas em espaços tão apertados que elas não conseguem se exercitar e nem mesmo se virar durante a gestação que dura 16 semanas. Quando estão prontas para o parto, são levadas às celas-parideiras, igualmente restritivas.
Frangos
Milhares de frangos para abate são entulhados nos galpões das fazendas industriais. Eles não são engaiolados, mas a concentração de pássaros é tão alta que cobre todo o espaço dos galpões. Além disso, o crescimento controlado por hormônios é tão acelerado que seus ossos, cérebro, coração e pulmão não conseguem acompanhar o metabolismo do corpo. Antes de serem abatidos (o que ocorre entre a sexta e a sétima semana de vida), esses pássaros são submetidos a ferimentos dolorosos e debilitantes. Vários morrem por parada cardíaca. Atualmente, mais de 20 bilhões de frangos para abate são criados em todo o mundo.
Agropecuária: estilo industrial
Na Ásia e na América é comum criar gado para abate em grandes propriedades - criação extensiva. Muitas cabeças de gado saturam um reduzido espaço, criando grande risco de doenças pela grande quantidade de dejetos que podem poluir o campo.
Na América do Norte e em partes da Ásia as vacas leiteiras nunca pastam. Elas são mantidas em sistemas de “pastagem-zero”, em que a ração é trazida aos animais. O sistema metabólico do animal não consegue acompanhar a superprodução de seus úberes. O esforço excessivo do animal resulta em problemas podológicos e articulatórios, úberes com infecções dolorosas e doenças metabólicas.
Peixe
A produção industrial também chegou à piscicultura. Milhares de peixes podem ser apertados dentro de uma jaula marítima ou lagoa, causando estresse e deixando-os mais suscetíveis a doenças. O abate geralmente não é humanitário.
Engenharia Genética
Por meio de alterações genéticas, os animais crescem de forma acelerada, ficam maiores, menos gordurosos e produzem mais leite. Geram lucro a despeito das consequências negativas que o uso de hormônio traz a saúde destes animais e à saúde humana.
Não só animais são afetados
A segurança alimentar é posta em xeque quando os animais são mantidos em sistemas intensivos de produção. A superlotação nas fazendas industriais cria o ambiente ideal para a propagação de doenças. Para tratar e conter essas doenças, os criadores lançam mão de uma diversa combinação de medicamentos.
A agricultura industrial também vem causando danos ao meio-ambiente, com o grande uso de fertilizantes químicos e pesticidas, tornando o solo infértil e ameaçando a fauna silvestre local.




Bem-Estar Animal

A Sociedade Mundial de Proteção Animal- WSPA lançou em junho de 2006 um importante documento para estabelecer critérios uniformes para a proteção dos animais em todo o mundo. Trata-se da Declaração Universal de Bem-Estar Animal. O documento integra a campanha da WSPA “Para mim os animais importam” e estabelece diretrizes básicas de bem-estar, reconhecendo os animais como seres senscientes, e sua proteção como importante meta para o pleno desenvolvimento social das nações de todo o mundo.
O objetivo é recolher 10 milhões de assinaturas pelo mundo e encaminhar o documento à ONU. Com isso, a WSPA pretende garantir métodos efetivos para livrar dos maus-tratos bilhões de animais em todo o mundo, criando normas e padrões a serem seguidos por todos os países- membros da ONU.
Durante o lançamento oficial do documento - que ocorreu no simpósio de afiliadas da WSPA, em Londres -, Noah Wekesa, ministro da Educação, Ciência e Tecnologia do Quênia disse que, apesar das diferenças sociais, econômicas, religiosas e culturais, é dever de cada sociedade cuidar e tratar dos animais de forma humana e sustentável.
Nesse sentido, a Declaração estabelece o direito à vida, destacando a presença humana como parte de um ecossistema que deve ser reconhecido e respeitado para que haja harmonia e equilíbrio entre as sociedades. Algumas das emendas propostas estabelecem que o bem-estar dos animais inclui zelar pela saúde deles, que os veterinários possuem um papel essencial na manutenção da saúde e do bem-estar desses animais; que os humanos partilham o planeta com outras espécies e formas de vida, co-existindo num ecossistema interdependente; e que é de extrema importância o trabalho contínuo da Organização Mundial para a Saúde Animal na criação de normas globais que assegurem o bem-estar animal.
site pra assinar o abaixo assinado: http://www.animalsmatter.org/
Atualmente, já são 500 mil assinaturas :)

Friday, August 31, 2007

Frida


"As duas Fridas", Frida Kahlo

Wednesday, August 29, 2007

Give me some truth

I'm sick and tired of hearing things from uptight, short-sighted, narrow-minded hypocritics. All I want is the truth, just gimme some truth. I've had enough of reading things by neurotic, psychotic, pig-headed politicians. All I want is the truth, just gimme some truth. No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky is gonna mother hubbard soft soap me with just a pocketful of hope. Money for dope; money for rope.
I'm sick to death of seeing things from tight-lipped, condescending, mama's little chauvinists. All I want is the truth, just gimme some truth now. I've had enough of watching scenes of schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas. All I want is the truth now, just gimme some truth. No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky is gonna mother hubbard soft soap me with just a pocketful of soap. It's money for dope; money for rope.


"Give me some truth", John Lennon

Sunday, August 26, 2007

Vocação

O jornalismo, ser repórter, é como uma missão de vida para você?
Penso que o jornalismo deve ser uma vocação, não apenas um emprego como trabalhar em um banco ou servir café. Se o seu objetivo é apenas ganhar dinheiro, pagar as contas, comprar casas e mandar as crianças para a escola, então você não fará o seu trabalho de maneira correta. O medo de ficar desempregado estará sempre à sua volta. Para fazer um bom trabalho é preciso dizer: "Isto é mais importante do que ganhar dinheiro". Um milhão de pessoas estão lendo o que você escreve - tomara!... Você é responsável por fazer a coisa certa, por transmitir a realidade do que está acontecendo, mesmo que as pessoas não gostem de você e do seu trabalho. Essa não é uma relação mercadológica.
O que você acha sobre a afirmação de que para ser um bom jornalista é necessário ser parcial, assumir uma posição?
Eu não acho que você precisa assumir uma posição. Acho que o jornalista tem que simpatizar com as pessoas oprimidas, com os que estão sofrendo e com as vítimas das injustiças. As pessoas dizem: "Você tem que ser objetivo". Não tem! Se você estivesse noticiando o tráfico de escravos no século 18, não daria espaço igual ao capitão do navio negreiro; se estivesse presente na liberação dos prisioneiros de um campo de concentração nazista, não daria espaço igual aos representante da SS, você entrevistaria os judeus sobreviventes que quase morreram lá. (...) O Oriente Médio não é um campo de futebol, é uma tragédia humana em massa e acho que os jornalistas deveriam enfatizar e mostrar o sentimento deles pelas pessoas que são as vítimas, incluindo os israelenses.
Robert Fisk, correspondente de guerra no Oriente Médio para o Independent
Entrevistado para a revista Caros Amigos, agosto de 2007.

Saturday, August 18, 2007

Qual é o limite?

Assaltos, estupros, massacres, genocídios. Assim caminha a humanidade.
Haverá limite?
Estaremos todos anestesiados?
A morte pela violência já não sensibiliza...
Centenas de milhares de vidas ceifadas!
Um fato corriqueiro. Um número.
São os estertores de um sistema putrefato.
Iraque, Afeganistão, Palestina...
É o ocaso de um sistema podre que não oferece mais nada.
África dizimada pela fome e pela doença. Olhe-se no espelho...
É o crepúsculo de um sistema que não aceita caminhar sozinho para o ralo.
O aluno que dispara contra os colegas.
O recado está dado!
É o salve-se-quem-puder.
Mas eis que ele surge alvo e radioso, para nos honrar com sua presença.
A ele, satificado seja, as iguarias que poderiam saciar a quem tem fome, a quem tem sede.
A ele, leitos de seda.
Confortar a quem? A ele primeiro.
Ele é único?
Olhem para Meca e abençoem Somália.
Mirem Israel e guardem suas gravatas.
É isso que nos reserva a religião?
Alguém já escreveu isso antes e eu repito.
O capitalismo matou os anjos! Agora são os demônios que falam em nome de Deus!

"Qual é o limite?", Georges Bourdoukan
"Caros Amigos", maio de 2007

Sunday, August 12, 2007

Me And Bobby McGee

Busted flat in Baton Rouge
Waitin' for a train
When I's feelin' near as faded as my jeans
Bobby thumbed a diesel down
Just before it rained
He rode us all the way to New Orleans
I pulled my harpoon
Out of my dirty red bandana
I was playin' soft while Bobby sang blues
Windshield wipers slappin' time
I was holdin' Bobby's hand in mine
We sang every song that driver knew
Freedom's just another word for nothin' left to lose
Nothin', I mean nothin' hon' if it ain't free
Yeah, feelin' good was easy Lord, when he sang the blues
Yeah, feelin' good was good enough for me
Good enough for me and my Bobby Mcgee
From the Kentucky coal mines
To the California sun
Yeah, Bobby shared the secrets of my soul
Through all kinds of weather
Through everything that we done
Hey, Bobby baby kept me from the cold
One day up near Salinas, Lord
I let him slip away
He's lookin' for that home, and I hope he finds it
Well, I'd trade all o' my tomorrows
For one single yesterday
To be holdin' Bobby's body next to mine
Freedom's just another word for nothin' left to lose
Nothin', an' that's all that Bobby left me, la da
Oh, feelin' good was easy, Lord, when he sang the blues
Yeah, feelin' good was good enough for me, oo oo
Good enough for me and my Bobby Mcgee
Lord, I called him my lover
I called him my man
I said I called him my lover did the best I can, c'mon
Hey, hey, hey Bobby McGee, yeah

"Me and Bobby McGee", Janis Joplin